domingo, 12 de junho de 2011

“Vai ter prova?”

Quando criança, eu fiquei muito curioso quando me disseram que eu iria para a Escola.
O que seria esta tal de “Escola” e porque eu haveria de conhecê-la?
Eu já vivia muito bem sem ela. Embora não soubesse valorizar de maneira aprofundada, sentia viver em um ambiente feliz e cercado de carinho. Da mesma maneira, mesmo sem saber dar o devido valor, entendia que tinha comida, antes de sentir fome, e tinha agasalho, antes de sentir frio. E como eu aprendia...
Eu aprendia todos os dias com o meu pai e com a minha mãe tantas coisas novas e interessantes e os dias eram maravilhosos. Definitivamente, eu não precisava de escola; tinha certeza disto.
Parecia um mantra esta coisa de escola. Todos os dias apareciam motivos para dizer que “o Bebeto vai para a escola” e falar dos benefícios que ela oferecia. Para mim, sempre aquela frase: “você vai a-do-rar”. Como criança não é boba, quando mais repetiam, mas ressabiado eu ficava... Eu sabia que não precisava de escola!
Até que chegou o dia e eu, resignado, me preparei para ela. Acordei e diante de mim, a minha mãe com o meu uniforme. Um impacto. O maldito do uniforme tinha o desenho de um avental branco que era colocado sobre um calção; o maldito avental tinha o jeito de vestido!!!
Entre algo parecido como “Eu não vou usar este negócio!”, “Eu não visto roupa de menina!” e “Eu não vou mais para escola nenhuma”, lá estava eu na porta do colégio sendo entregue à Professora e de-vi-da-men-te uniformizado. Minha surpresa é que os outros meninos também usavam aquele avental - menos mal, não é verdade?
Ao passar por aquele portão, descobri passar por um verdadeiro Portal. Um mundo novo se abria aos meus olhos e comecei a gostar dele. Comecei a gostar muito dele. Naquele novo mundo da escola, em pouco tempo multipliquei meu número de amigos. Minhas brincadeiras tinham mais participantes e descobria novas brincadeiras, algumas melhores que aquelas brincadeiras que eu tinha levado...
Ah, escola... Porque não me trouxeram antes!? Quanto tempo eu perdi, sem ela na minha vida!
Na escola comecei a aprender mais ainda. O que eu aprendia, levava como notícia para casa. Sentia imensa alegria em contar meus feitos em volta da mesa, durante o jantar. Meus pais me ouviam e o papo ia longe.
Eu era feliz com a escola...
Eu tinha muitos amigos, a professora gostava de mim e um belo dia, com apenas sete anos, me senti perdidamente apaixonado. Não acredita? Pois saiba que a grande maioria dos homens pode se apaixonar verdadeiramente nesta idade. A tristeza é que não sabem expressar este sentimento e se soubessem não teriam a coragem para fazê-lo. Assim, senti, sofri e nunca ela ficou sabendo.
Ir para escola, além de tudo, me permitiria olhar para ela, sentir sua respiração quando perto de mim, desenhar para ela e vê-la feliz com meus desenhos. A escola era a melhor coisa do mundo!
A escola era a melhor coisa do mundo até a prova. Esta tal de prova, inventada não sei por quem, só servia para me estressar. Não interessava se eu nunca faltava às aulas; não interessava se eu prestava atenção às palavras da professora; não interessava se na noite anterior à prova eu tivesse tido uma diarréia que esvaziasse todo o meu manancial de água do organismo, secando o meu cérebro.
Eu descobri que nada adiantaria se eu não fosse bem no resultado da prova. Tudo mudava.
Já no dia da prova as coisas mudavam. A professora chegava de cara amarrada. Ela me separava dos meus amigos e tínhamos de sentar em cadeiras distantes. Todos assim, separados. Ao distribuir as provas, nos obrigava a não ver seu conteúdo de imediato, somente quando ela ordenasse. Tínhamos de mantê-las viradas de cabeça para baixo. A sensação é que o bom menino de ontem tinha virado bandido.
Depois de corrigidas, as notas eram apresentadas a turma. Eram lidas das maiores para as menores notas, em voz alta pela professora e as piores notas ficavam por último em uma cadeia constrangedora. Todos ouviam; todos sabiam.
Precisava de boas notas, senão tudo mudava...
A professora que me tratava com carinho todos os dias mudava quando eu não tirava boa nota. Eu via que aqueles que tiravam as piores notas eram “zoados” pelos colegas.
E em casa? A entrega do boletim poderia ser a declaração de morte ou no mínimo de torturas, conhecidas pelo terrível nome de castigos.
Em pouco tempo descobri que para a escola (Instituição), para os meus amigos, parentes e pais (Sociedade) o mais importante não era aprender, e, sim, ir bem nas provas, tirando boas notas. Esta, pelo menos, foi a minha interpretação.
Como eu não estava disposto a passar por toda aquela provação tinha de descobrir uma forma de tirar sempre boas notas (Ah,...aconteceu isto com você também...?). No meu caso, enquanto eu pensava o que fazer, a própria professora me foi dando a dica em um dia de prova. Dizia ela:
- “Carlos Alberto, saia desta cadeira e vá para aquela no fundo da sala”.
- “Maria, venha para perto de mim”.
-“João, fique afastado do José”.
-“Agora, eu distribuirei a prova...”.
- “Não virem a prova! Coloquem-na virada sobre a mesa e não mexam!”.
Todos pareciam marginais, sendo recebidos em seu primeiro dia de prisão.
Minha impressão é que, ao tocar na prova poderia ser algemado.
Continuava a professora, enquanto eu imaginava porque estava distante dos meus amigos.
- “Quando eu falar já podem virar a prova”.
- “Só comecem quando eu mandar”.
-“Não quero ninguém colando!”.
*******
“Colando”?
O que é isso?
Ela não quer ninguém fazendo este negócio de “colando”?
Acendia uma luz para aquele aluno (eu, que vos escreve) que sabia estar num lugar que o mais importante não é aprender.
-“Prestem atenção, se eu pegar alguém colando...”.
Opa.
Quer dizer, que ela pode até não pegar!?
Naquele momento, tudo ficou claro.
Eu poderia tirar boas notas se, além de estudar, também colasse desde que o fizesse de tal forma que ela não percebesse. Aliás, poderia até deixar de estudar, se minhas colas fossem boas o suficiente. Daquele momento em diante, me especializei em colas. Fiquei conhecido e recebia encomendas. Minhas colas eram famosas e algumas divertidas nas quais até a professora participava ativamente sem saber.
Colei muuuuuito... Até que amadureci e tomei a decisão de que não mais me interessavam os resultados das minhas provas; eu queria, de fato, aprender. A partir de então, tirei as melhores notas da vida.
Com esta história de vida, como você imagina que eu encaro os treinamentos corporativos?
  • Como você está elaborando os seus treinamentos corporativos?
  • Como a instituição (empresa) está encarando?
  • Como a sociedade (Colegas e Gerentes) está encarando?
  • Como seu aprendiz está encarando seus treinamentos?
Se você ainda passa por treinamentos nos quais os aprendizes ainda perguntam “Vai ter prova no final?” é bom saber o que eles estão querem dizer, exatamente, com isto...
... E mudar a forma de treinar; porque o mais importante é saber e fazer certo.


Carlos Santarem
www.squalidadde.com.br
squalidade@squalidade.com.br

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